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INSTANTE DE DECISÃO
Ficção científica
por Randall Garrett
Instante de Decisão: Texto
Quando o tiro vindo do prédio em construção mais próximo atingiu um dos montes de areia, Karnes já estava em movimento, cinco metros à frente, devidamente protegido por pilhas bem-organizadas de sacos de cimento. A região adiante estava livre de tijolos e metais, fornecendo o caminho perfeito para dentro do prédio, pela janela.
Trezentos metros atrás dele, onde antes existia a seção de montagem da Espaçonaves Carlson, clarões do inferno emanavam uma luminosidade avermelhada nos arredores, pontilhada de flashes branco-azulados de magnésio flamejante.
Por um instante, Karnes teve esperança de que o tiro seria ouvido na área do incêndio, mas era uma esperança tola. Os rugidos vindos de fogo, pessoas e máquinas eram colossais comparados àquele estalido.
Ele se moveu em silêncio ao lado dos sacos de cimento e entrou no prédio pelo peitoril da janela. Algum lugar à frente e à sua esquerda haveria uma porta que levaria ao corredor central onde James Avery, codinome James Harvey, codinome meia dúzia de outros nomes, estava a espera para dar mais um tiro aleatório noutro monte de areia.
O caminho era mais longo do que ele esperava. Além disso, percebeu que entrar pela janela foi um bocado descuidado. Com a luz do fogo às suas costas, seria alvo fácil para alguém ao fundo do corredor ou mesmo para qualquer das salas vazias e escuras, que no futuro seriam escritórios.
Por fim, ele achou o caminho. Uma nesga de luz vinda do corredor central foi o suficiente para mostrar a direção para qual virar.
Usando a escuridão como esconderijo, os olhos de Karnes examinaram o ambiente amplo até detectar o movimento perto das escadas. Sabendo para onde olhar, ficou fácil perceber a figura humana agachada.
Karnes pensou: Não posso gritar para que se renda. Não posso deixar que fuja. Não posso atravessar o corredor para enfiar minha arma nas costelas dele. E, acima de tudo, não posso permitir que escape com aquele microfilme.
Inferno, só sobrou uma possibilidade.
Karnes levantou sua arma, mirou na figura e atirou.
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Avery deveria estar com a arma muito firme na mão, porque quando a bala de Karnes o atingiu, ela foi disparada antes que o corpo se esparramasse pela laje de cimento. Em seguida, caiu da mão morta e deslizou pelo chão, girando em torno de si.
Karnes se aproximou com cuidado, apenas para o caso de o corpo não ser um cadáver. Logo percebeu que a precaução era desnecessária. Apoiou um joelho no chão, girou o morto, desabotoou as calças dele e as abaixou até a altura dos joelhos. Arrancou dali a fita adesiva que sabia estar no interior da coxa. Por baixo, estavam quatro pequenos quadrados de um plástico fino.
Enquanto Karnes olhava para o precioso microfilme em suas mãos, sentiu algo estranho. Se fosse equipado com os músculos corretos, teria levantado as orelhas. Havia passos sutis atrás dele.
Trocou os joelhos num giro, com a arma pronta. Havia outra pessoa em pé no alto da escada, em meio à escuridão.
Karnes se levantou devagar, alvo na mira.
— Desça daí devagar, com as mãos para cima!
A pessoa não se moveu imediatamente e, embora Karnes não pudesse ver o rosto em meio a escuridão difusa, teve a sensação plena de que havia um sorriso ali. Quando a pessoa finalmente se moveu, foi para girar nos calcanhares e fugir pelo corredor de cima, com um tiro estalando atrás dela.
Karnes alcançou o alto da escada e atirou de novo ne fugitive, cujo contorno era visível contra a primeira luz do dia, que entrava pela janela ao final do corredor.
A figura continuou a correr e Karnes ia atrás, atirando mais duas vezes no processo.
Quem te ensinou a atirar, molenga? Ele pensou, enquanto a pessoa continuava a fugir.
No final do corredor, le fugitive entrou de repente num dos futuros escritórios, seu perseguidor cinco metros para atrás.
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Depois do ocorrido, Karnes revisava tudo mentalmente diversas vezes. Tentava encontrar alguma falha ou ilusão naquilo que viu. Mas, por mais que odiasse acreditar em seus sentidos, continuou convencido.
A janela ampla oferecia luz suficiente para que a sala fosse vista por inteiro. Não havia muito ali para se ver, com exceção de um objeto cinza, levemente iridescente, no meio do local.
Era um esferóide achatado, com pouco mais de dois metros de altura e quase três de largura. Conforme Karnes entrava na sala, viu a pessoa atravessar o objeto que, até então, parecia sólido.
Em seguida, globo, pessoa e tudo, desapareceram. A sala ficou vazia.
Karnes considerou sua entrada abrupta enquanto observava o ambiente sob a luz do amanhecer sombrio. Por um minuto inteiro, seu cérebro se recusou a sequer racionalizar o que viu. Ele revirou todo o espaço vazio, ninguém à vista. No instante seguinte, se sentiu muito tolo.
Certo. Então, uma pessoa pode entrar num treco cinzento redondo e desaparecer. Muito bem, use um pouco de noção e procure de novo.
Havia alguma coisa a mais na sala. Karnes agachou e olhou para um pequeno objeto deixado no chão a poucos metros de onde o globo cinzento estava. Uma cigarreira, daquelas finas, para levar nos bolsos do casaco, esmaltada em preto com um quadriculado pequeno que tornaria impossível destacar qualquer pista. Se houvesse alguma impressão digital, estaria do lado de dentro.
Ele se movimentou para pegar, mas ainda estava um bocado confuso e suas mãos, ocupadas. Tinha sua automática na mão direita e entre o polegar e o indicador da esquerda estavam as quatro lâminas de microfilme.
Karnes colocou a arma no coldre. Pegou um envelope do bolso, colocou as películas dentro e voltou a guardá-lo. Pegou a cigarreira na mão. Era um caso realmente estranho, ele pensou. Estav...
— Ei, você aí. Levante devagar, com as mãos onde eu possa vê-las.
Deus do céu, pensou Karnes, não sabia que tava rolando um churrasco no prédio. Ele seguiu as orientações dadas.
Havia dois delus na porta, ambes usando o uniforme da Espaçonaves Carlson. Esquadrão de segurança local.
— Quem é você, xará? — perguntou a pessoa de queixo largo, a mesma de antes. — E que que 'cê tá fazendo aqui?
Karnes, mantendo as mãos levantadas, respondeu:
— Minha carteira está no bolso da calça, fique à vontade.
— Claro, claro. Mas primeiro, mãos na parede, pés afastados.
Era evidente que a pessoa ou era ex-policial ou era leitora de histórias detetivescas.
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Assim que Karnes se apoiou na parede, le guarda vistoriou seus bolsos, todos eles, mas não tirou nada de lá, com exceção da pistola e da carteira.
O cartão no visor especial da carteira alterou maravilhosamente a educação des guardas.
— Ah —, elu disse, sutil. — Governo, hein? Caracas, sinto muito, senhor, nós não sabíamos...
Karnes se ajeitou e abaixou as mãos. A cigarreira, que se manteve em sua mão o tempo todo, foi para o bolso da jaqueta.
— Sem problemas —, ele respondeu. — Chegaram a encontrar o garoto no pé da escada?
— Sim. Jim Avery. Trabalhava na montagem. O que aconteceu com ele?
— Entrou no caminho de uma bala. Resistência à prisão. É o engraçadinho que incentivou os incendiários que fizeram aquela graça lá fora. Estamos investigando ele há meses, mas não conseguimos qualquer informação sobre aquela fofurice antes que fosse tarde.
Le guarda estava confuse:
— Jim Avery. Mas por que ele iria querer algo assim?
Karnes olhou profundamente nos olhos delu:
— Ligonauta.
Le guarda aquiesceu. Nunca se sabe quando a Liga iria brotar daquele jeito.
Mesmo depois do colapso do Comunismo, depois da guerra, parece que o mundo não entendeu nada. A Liga Eurasiana pareceu, em um primeiro momento, seguir os padrões da Organização das Nações Unidas, mas não foi bem assim.
Para começo de conversa, a Liga invejava a liderança da ONU relacionada à viagem espacial. Além disso, eles não tinham dinheiro ou conhecimento para alcançar a Organização. A ONU teria ajudado, mas, como um membro da delegação francesa chegou a frisar: “Por qual razão deveríamos armar um inimigo em potencial?”
Por fim, os argumentos questionavam a razão de oferecer espaçonaves à Liga, quando ela própria era a ameaça que pairava sobre a Base Lunar da ONU.
A Liga Eurasiana se manteve em silêncio por muitos anos, contrariada, mas comportada. Três anos depois, a Base Lunar sumiu em meio a um flash ultravioleta, deixando apenas uma nova mini cratera na crosta de Luna.
Não existe prova de coisa alguma, por óbvio. Foi divulgado como um acidente. Mas daquele dia em diante, a Liga foi se tornando cada vez mais ousada. A política dela era “Esmagar a ONU e tomar os planetas para si.”
E agora, com a Espaçonaves Carlson virando fogueira, a Liga parecia mais perto de alcançar seu objetivo.
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Karnes aceitou a devolução de sua arma e carteira e liderou les guardas até a base da escada.
— Algum de vocês poderia ligar para a polícia estadual? O pessoal vai querer saber o que aconteceu.
Os cópteros da Polícia Estadual chegaram e partiram, levando com elus Karnes e o finado sr. Avery, deixando para trás a Espaçonaves Carlson, que agora não passava de brasa.
Havia milhares de formulários para preencher e declarações a dar. Uma ligação foi feita para o quartel general da ONU em Nova York para confirmar a identidade de Karnes, e o agente pediu o laboratório da polícia emprestado por mais ou menos uma hora.
Naquela noite, ele apanhou o foguete para Long Island.
Conforme a SR-37 flutuava pelo vácuo extremo, oitocentos metros acima da área central de Nebraska, Karnes se inclinou no assento, girando a estranha cigarreira nas mãos, de novo, de novo e de novo.
Com exceção do impecável padrão axadrezado que cobria a superfície externa, o objeto de dez por dezoito centímetros não tinha qualquer característica relevante. Não havia travas, dobradiças, nem mesmo uma rachadura sequer. Ele também descobrira que não abria.
O que quer que fosse, definitivamente não era uma cigarreira.
As chapas de raio-x o apresentaram como algo perfeitamente homogêneo.
Até onde eu entendi, pensou Karnes, não passa de um pedaço de plástico à prova de ácido, exceto por uma gravidade específica alta pra diabo. Talvez se eu cortasse, poderia...
Karnes tinha certeza de que não tinha feito nada. Não empurrou, apertou, sacudiu ou esfregou de nenhuma forma incomum. Mas algo aconteceu, e tinha certeza de que veio da caixa em suas mãos.
Ele teve a forte impressão de que havia uma mangueira de incêndio de alta pressão jorrando da caixa para dentro do seu crânio, por todo o seu cérebro e além, limpando e preenchendo o órgão. Pequenos rios de conhecimento fluindo pelas circunvoluções, formando poças e sendo absorvidos.
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Ele não tinha ideia de quanto tempo levou todo o processo, mas certamente não foi mais do que um ou dois segundos. Depois, ficou lá, sentado, admirando o vazio.
De algum lugar do fundo inimaginável da galáxia, lutando através das vastas nuvens de poeira interestelar, veio uma voz:
— O senhor está doente?
Karnes voltou os olhos para le comissárie.
— Ah... Ah, não. Não, eu estou bem. Tudo bem aqui. Estava apenas pensando. Tudo em ordem. Mesmo.
Ele olhou novamente para a “cigarreira”. Ele sabia o que era agora. Não existia uma palavra para aquilo, mas ele chutou que “reprodutor mental” chegaria perto.
Foi o que aquilo fez, reproduziu conhecimento, que ele não deveria ter, direto para sua mente. A reprodução de algo que não lhe dizia respeito.
E ele desejava aos Céus não saber.
Isto, Karnes considerou, é um problema. Esta coisa é muito alienígena! Uma série de coisas que eu sei, mas não faço ideia como explicar. Como um sonho: você sabe tudo sobre ele, mas é praticamente impossível explicar para qualquer pessoa.
No espaçoporto, ele foi recebido por um carro oficial. George Lansberg, um dos agentes de Nova York, estava no banco de trás.
— E aí, farejador? Soube que você viria, então pedi para vir te encontrar. — Ele baixou a voz assim que Karnes entrou e o carro começou a se movimentar. — Como está nosso rapaz, Avery?
Karnes balançou a cabeça:
— Tarde demais. Trinta milhões em material perdido, assim como o próprio Avery.
— Como aconteceu?
— Tive que abatê-lo para evitar que fugisse com isso aqui.
Ele mostrou os microfilmes para Lansberg.
— Os fotocircuitos para o novo piloto automático. Teríamos perdido tudo se a Liga colocasse as mãos nisto.
— Não aprendeu nada com Avery, então? — Lansberg perguntou.
— Nem uma palavra. — Karnes ficou em silêncio. Não sentiu a necessidade de falar sobre o reprodutor mental ainda.
Lansberg encaixou um cigarro na boca e falou ao mesmo tempo que o acendia.
— Temos algo para você lidar, agora que Avery está resolvido. Um cara chamado Brittain, nome real Bretinov, que está escondido num apartamento pequeno no Brooklyn. Ele é o líder setorial daquela área, sabemos quem são seus informantes e para quem ele dá ordens. O que não sabemos é quem dá ordens a ele. Nós plantamos algo falso, mas que parece bastante legítimo, para Brittain pôr as mãos e passar ao próximo escalão. Depois disso, a gente senta e assiste até ele colocar o pacote em movimento.
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Karnas percebeu que só estava oferecendo meia orelha de atenção para Lansberg. Seu cérebro ainda zumbia com as coisas que ele não deveria ter conhecimento, tentando encaixar aquilo que ele sempre soube em coisas que agora ele sabia, mas não teria como saber antes. Maldita “cigarreira”!
— Parece divertido — ele respondeu para Lansberg.
— É. Ótimo. Bem, chegamos. — Eles foram levados para o edifício da Vias Espaciais de Long Island, onde também ficava o escritório local.
Entraram no prédio, pegaram o elevador e passaram por um corredor até chegar em um dos escritórios. Lansberg disse:
— Eu te espero aqui. Tomamos um café depois.
Le ruive atrás da mesa sorriu para Karnes.
— Pode entrar, elu está esperando por você.
— Não sei se deveria deixar você aqui com Georgie ou não — Karnes gracejou. — Acho que ele tem planos.
— Ah, boa! — Elu deu um sorrizinho de volta.
Minha nossa, como somos espertos. Seus pensamentos eram amargos, mas sua expressão não demonstrava.
Antes de entrar, ajeitou o colarinho em frente ao espelho. Notou que seu rosto liso e levemente bronzeado parecia o mesmo de sempre. Mesmos olhos verdes acinzentados, mesmo nariz fino e encurvado.
Parceiro, você parece perfeitamente são. Você está perfeitamente são. Mas quem diabos acreditaria?
Não faria bem algum, afinal, contar a qualquer pessoa o que ele encontrou. Não importava qual seria a resposta, não havia o que ele pudesse fazer. Não havia o que qualquer um pudesse fazer.
Assim sendo, o relatório de Karnes para sue superiore foi curto, direto ao ponto, censurado.
Naquela noite, Karnes sentou-se em seu apartamento, encaixando um cigarro atrás do outro, admirando a vista da janela. Finalmente, amassou uma bituca, levantou-se e falou:
— Talvez se eu botar no papel, eu consiga entender.
Ele se sentou em frente à máquina de escrever portátil em sua mesa, girou uma folha de papel e colocou seus dedos nas teclas. Olhou por um bom tempo para a folha em branco, sentado ali, revirando as ideias. Finalmente, começou a escrever:
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Uma Série de Instruções Gerais e Amplo Esboço sobre os Propósitos e a Construção do Santuário da Terra.
Parte Um: Histórico
Cerca de cem ou mais milênios atrás, considerando essa a medida mais rigorosa que uma pesquisa pode determinar, nossos ancestrais mais remotos estavam confinados a um único planeta da Galáxia: a lendária Terra.
O terceiro planeta de Sol (número ininteligível) sempre suspeitou-se que era a Terra, mas apenas com o desenvolvimento do princípio de transferência temporal foi possível checar essa teoria por completo.
O brilhante trabalho feito por —
(Karnes hesitou um instante por conta do nome, depois escreveu:)
— Starson em história antiga e o princípio da evolução da raça demonstraram-se corretas. Isso abriu um novo e fascinante campo de estudo da socioantropologia.
Parte Dois: Propósitos e Objetivos Atuais
Por conta da grande transferência de energia e perigo cósmico envolvendo viagens temporais muito frequentes e irrestritas, foi decidido que o melhor método para estudar os problemas sociais envolvidos seria reconstruir, em detalhe, a Terra ancestral como ela era imediatamente após as descobertas do poder atômico e da viagem espacial interplanetária.
Para facilitar o trabalho, o Grupo de Pesquisa vai se projetar para a área cronológica em questão e obter registros completos daquele período, cobrindo os anos entre (1940) e (2020).
Quando a pesquisa estiver completa, o Grupo de Construção reconstruirá aquela civilização com a maior exatidão possível, com sua população completa, estratos fósseis, prédios etc.
Quando da abertura do Santuário, a réplica da nossa civilização antiga terá início como era em (3 de janeiro de 1953). A população, preenchida com suas devidas memórias, terão permissão para viver suas vidas livremente.
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Karnes parou de novo e leu os parágrafos recém escritos. Soou diferente no papel. As datas, por exemplo, ele colocou entre parênteses porque foi a forma como as entendeu. Mas ele sabia que quem quer que tenha construído o reprodutor mental não usava o mesmo calendário que ele.
Fez uma careta para o papel e seguiu escrevendo.
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Parte 3: Condução dos Estudantes
Estudantes desejosos de conhecer o Santuário a fim de (ininteligível de novo) devem obter permissão junto ao Conselho Escolar Galáctico e, caso obtenham sucesso em sua solicitação, devem agir de acordo com qualquer regra que tal Conselho demandar.
Parte Quatro: Ações Corretivas a serem tomadas.
Em alguns pontos na história da Terra ancestral, algumas crises surgiram, algo que seria prejudicial para o Santuário. Tais crises devem ser mitigadas para que...
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Karnes parou. Aquilo era tudo que ele tinha. Exceto... Exceto por uma última linha de raciocínio. Ele escreveu:
(Continua na Camada Dois)
O que quer que isso signifique, ele pensou.
Ele se sentou em sua cadeira e revisou as duas folhas de papel datilografadas. Não estava completo, nem de longe. Havia algumas nuances de significados que palavras escritas, ou mesmo faladas, não poderiam traduzir. Havia evidências de uma civilização vasta e sobre-humana, com um jeito de pensar alienígena e, de alguma maneira, humano ao mesmo tempo.
Mas aquela era a ideia geral da coisa. A pessoa que ele viu naquele prédio novo próximo ao Espaçonaves Carlson não era ume humane comum.
Aquilo, no entanto, não incomodou tanto Karnes quanto o globo cinza no qual elu desapareceu depois de ter sido alvejade. E Karnes sabia, agora, que provavelmente não tinha errado a mira.
O globo era uma de duas coisas. E le intruse era parte de um dos dois grupos:
(A) um dos Pesquisadores da Terra Ancestral, e nesse caso o globo seria... Bem, uma máquina do tempo; ou
(B) um estudante e, nesse caso, a máquina era algum tipo de espaçonave.
O ponto era: qual?
Se fosse (A), então ele e o mundo ao seu redor eram reais, vívidos, evoluindo em seu próprio destino até um ponto no futuro, representado pela pessoa no objeto cinzento.
Mas se fosse (B)...
Este era o Santuário, e ele, a Terra e todo o resto não passavam de um livro-texto glorificado.
E haveria crises no Santuário, réplicas de crises que ocorreram na velha Terra. Só que elas não teriam a permissão de acontecer. As pobres pessoas do Santuário seriam mimadas como crianças. Cacete!
Karnes amassou as folhas nas mãos, torcendo-as de forma selvagem. Depois ele as rasgou metodicamente em pedacinhos.
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Quando a primeira luz do amanhecer tocou o mar, Karnes estava assistindo pela janela leste. Haviam se passado vinte e quatro horas desde que ele vira ume sobre-humane atravessar um globo cinzento e sumir.
Ele passou a noite toda buscando alguma pista em seu cérebro que pudesse determinar quais das duas possibilidades ele deveria acreditar. Não conseguiu se convencer de nenhuma.
Em algum momento, ele pensou: Por que eu acredito no que o reprodutor disse? Por que não apenas esquecer?
Mas isso não ajudou. Ele acreditava. O instrumento alienígena havia talhado sua mente, não apenas com fatos, mas com a profunda crença de que eram fatos. Não havia espaço para dúvida, o conhecimento transmitido para sua mente era verdadeiro e ele sabia.
Por algum tempo, a ideia de que o globo cinzento devia ser a máquina do tempo, por conta da forma como desapareceu, confortou a mente de Karnes. Era muito acolhedor até ele perceber que uma viagem para as estrelas e além não significava, obrigatoriamente, espaçonaves como ele as conhecia. Teletransporte...
Agora, com o amanhecer, Karnes sabia que só havia uma coisa que ele poderia fazer.
De alguma forma, em algum lugar, deveriam existir outras pistas, as quais alguém que soubesse o que procurar, encontraria. Les Galactianes não poderiam ser perfeites, ou não teriam permitido que ele obtivesse o reprodutor mental. Logo, em algum lugar, eles escorregariam de novo.
Karnes sabia que passaria o resto da vida procurando por esse escorregão. Ele precisava saber a verdade, de um jeito ou de outro.
Era isso ou perder a sanidade.
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Lansberg o apanhou às oito num cóptero policial. Conforme eles voavam em direção a Nova York, a mente de Karnes estabeleceu um propósito frio, que se assentou na base do cérebro.
Lansberg dizia:
—... e alguém da equipe de Brittain apanhou o treco ontem à noite. Ainda não foi passado para o próprio até esta manhã. Mas deve estar com ele até chegarmos. Nós preparamos tudo para que Brittain tenha que passar para algum superior até amanhã, ou será tudo em vão. Quando ele fizer isso, seguiremos diretamente para o chefe.
— Se cobrirmos nossas bases — respondeu Karnes —, vamos apanhá-los fácil.
— Irmão, assim espero! Foram oito meses para pegarmos Brittain todo excitado e ansioso pela isca, outros dois para que chegasse até ele de uma maneira que não despertasse suspeitas. É material restrito, assim podemos vinculá-los a atividades subversivas, no mínimo. Talvez espionagem. Mas tivemos que discutir pra cacete para manter restrito. A Comissão Espacial estava prontinha para lançar, já que é relativamente inofensivo.
Karnes olhava distraído para a linha fina de fumaça que dançava a partir do cigarro de Lansberg.
— Sabe — ele disse —, há momentos em que eu queria que essa guerra explodisse logo de uma vez. Na verdade, nós temos lutado contra a Liga há anos, mas não admitimos. Tem havido pequenos desentendimentos e incidentes que nem o diabo teria. Mas ainda se supõe que seja uma “guerra de preocupações”.
Lansberg deu de ombros.
— Vai esquentar assim que a Liga Eurasiana descobrir que a capacidade de construção de espaçonave deles é mais que suficiente para tomar as colônias marcianas, se eles vencerem. Aí, e somente aí, tentarão nos esmagar antes que possamos retaliar. Nós não podemos começar essa guerra. Nossa única esperança é que quando eles comecem, a Liga vai nos subestimar. Agora me diz, com o que você está brincando?
A mudança de assunto repentina assustou Karnes por um instante. Ele olhou para o reprodutor mental em suas mãos. Ele vinha brincando com ele o tempo todo, desejoso de que repetisse sua última performance ou, quem sabe, conseguisse alguma informação adicional.
— Isso? — Ele cobriu rapidamente. — É um... um quebra-cabeças. Um daqueles quebra-cabeças de plástico. — Talvez não funcione com a mesma pessoa duas vezes. Se eu puder fazer com que George mexa com isso, ele pode conseguir a combinação correta de novo.
— Hmmm. Como funciona? — George pareceu interessado.
Karnes entregou a ele.
— Tem um par de pequenos pesos que deslizam do lado de dentro. Você tem que girá-lo do jeito certo para destrancar. Aí, ele desmonta quando você desliza uma parte da superfície. Tente.
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Lansberg aceitou, virou de um lado para o outro, passando as mãos pela superfície. Karnes o observou por vários minutos, mas não pareceu ter qualquer resultado.
Lansberg ergueu os olhos.
— Eu desisto. Não consigo sequer entender onde isso abre, tampouco sentir qualquer peso deslizando por dentro. Mostra aí como faz.
Karnes pensou rápido.
— Por que você acha que eu estava aqui perdendo tempo com ele? Eu não faço ideia de como funciona. Um amigo apostou comigo dez pratas que eu não conseguiria descobrir a combinação.
Lansberg olhou de volta para o reprodutor em suas mãos.
— Ele conseguiu?
— Num instante. Eu o assisti fazendo duas vezes e ainda não entendi.
— Mmm... Interessante. — George voltou a trabalhar no “quebra-cabeças”.
Pouco antes de pousarem no alto do anexo da ONU, Lansberg devolveu o reprodutor para Karnes, as expectativas de ambos obviamente frustradas.
— Toma que a cria é tua, — Lansberg disse, balançando a cabeça. — Só tenho a dizer que é uma maneira infernal de descolar dez pratas.
Karnes sorriu e devolveu o item ao bolso do casaco.
Quando o anoitecer veio, Karnes estava começando a ficar entediado. Ele e Lansberg chegaram e saíram do escritório de Nova York em tempo recorde. Em seguida, passaram algumas horas com a polícia local e o procurador, montando a rede para capturar todos os ratinhos envolvidos.
Depois, não havia mais nada a fazer a não ser esperar.
Karnes dormiu por duas horas, leu duas revistas de ponta a ponta e jogou oito partidas de paciência. Começava a se coçar.
Seu cérebro continuou a craquelar. O que há comigo? Eu devia estar focado nesse Brittain em vez de...
Mas, afinal, quem se importava com Brittain? De acordo com os registros, ele nasceu Alex Bretinov, em Marseilles, França, em 1968. O pai dele, talhado na pedra da velha guarda comunista, nasceu em Minsk, em 1940.
Ou teria ele sido refeito e seu relógio começado a rodar em janeiro de 1953?
O rádio informou:
— Dezoito. Alerta. Brittain acaba de deixar seu apartamento a pé. Carlson e Reymann no encalço. Câmbio.
Lansberg largou sua revista.
— Ele parece estar a caminho do Grandalhão... Eu espero.
Um carro o seguiu até o metrô, depois dues agentes o seguiram a pé a partir da Avenida Flatbush.
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Horas mais tarde, depois de muitos desvios, esquivas e mudanças de percurso, Brittain subiu em um táxi na esquina da Avenida Park com a rua quarenta e sete, sentindo que tinha dado o perdido em qualquer perseguidore.
Karnes e Lansberg estavam em um carro logo atrás dele.
O táxi partiu para o sul pela Avenida Park, seguindo por ela até se tornar a Quarta. Virou na Décima, passando pela Grace Church, atravessando a Broadway. Na Sexta, virou em direção ao Greenwich Village.
— Algum lugar no Village, favas contadas, — Lansberg supôs enquanto virava para seguir.
Karnes, no rádio, fornecia direções rápidas para o transceptor equipado com decodificador. Pouco depois, uma série de carros cheios de agentes e policiais convergiam para o táxi, vindos de todas as direções. Do alto, vinha o som suave dos cópteros.
Lansberg estava empolgado.
— Pegamos eles, finalmente! E tudo que conseguirmos sobre cada efedepê do lugar.
Os carros ronronavam pelas vias largas, passando pelo bairro de apartamentos glamourosamente pobres. No início dos anos sessenta, alguns destes apartamentos tinham sido hotéis caros, mas o Village virou biqueira a partir dos anos setenta.
Alguns minutos depois, o táxi estacionou em frente a um prédio imponente com painéis de alumínio ligeiramente manchados. Brittain saiu do carro, pagou a tarifa e entrou no edifício.
Assim que o táxi encostou, Karnes deu ordens para que ele fosse parado alguns blocos a frente, por precaução.
O restante dos veículos começou a cercar o prédio.
Nesse meio tempo, Karnes seguiu Brittain pelo pátio do edifício. Aquilo quase foi um erro. Brittain não havia entrado. Atraído pelos passos que o seguiam, ele se virou e olhou para fora. Karnes não estava a mais de três metros dele.
Finja que mora aqui, pensou Karnes, e o valentão nunca vai saber a diferença.
Ele andou direto para o alto da escada até a porta, fazendo de conta que não tinha percebido Brittain ali. O homem ficou atordoado, sem ter certeza se sabia quem Karnes era. Esse também fez de conta que não suspeitava de nada. Apertou a campainha para se anunciar como visitante. Karnes notou que era o botão do 523. Quinto andar.
A porta de frente, dentro do pátio, tinha uma daquelas trancas elétricas que só permite entrar quem tenha a chave ou um amigo morador que permita a entrada.
Quando Karnes viu Brittain apertar o botão, ele aguardou um segundo e aproveitou a oportunidade.
— Aqui — ele disse, pescando algo no bolso, — eu libero pra você. — Isso deve dar a ele a impressão de que moro aqui.
Brittain sorriu encantador.
— Obrigado, mas eu...
Bzzz! A tranca velha anunciou que estava aberta. Karnes parou de mexer nos bolsos e abriu a porta, deixando Brittain segui-lo. Ele se manteve à frente no caminho para o elevador e neste apertou o botão 4.
— Você vai descer antes do quarto? — perguntou em tom casual.
— Não.
O elevador subiu até o quarto andar com ambos em silêncio.
Karnes analisou a velocidade do elevador, estimando o tempo que levou para a porta abrir e fazendo comparações mentais com a própria habilidade de subir escadas correndo. O elevador era velho e bastante lento...
Quando a porta abriu, ele saiu e caminhou lentamente do hall para o corredor. Assim que o elevador se fechou, ele disparou a correr e alcançou as escadas em alta velocidade, suas pernas longas subindo três degraus por vez.
As escadas estavam mal iluminadas, uma vez que quase nunca eram usadas e, ao alcançar o quinto andar, ele conseguiu se manter na escuridão quando Brittain virou em direção à porta do 523.
Karnes deu atenção aos arredores. Havia um carpete de nylon bem gasto, mas não esfarrapado, no chão, um corrimão das escadas era em um tom cromado fosco e os halls eram iluminados por placas de vidro antiquadas presas ao teto. Era barato, mas não era pobre.
Confirmando que Brittain realmente entrou no 523, ele se afastou em direção ao elevador com a intenção de notificar Lansberg, mas uma voz grave com forte sotaque nova-iorquino o surpreendeu:
— Procurando alguém, senhor?
Karnes virou. Um homem idoso e gordo, com um bigode espesso, parou a meio caminho das escadas, vestindo calça e camisa.
— Quem é você? — Karnes fez uma careta.
— Sou Amati, o zelador, por quê? — O homem fez uma carranca ainda mais ameaçadora.
Karnes não podia correr riscos. O senhor poderia ser alguém confiável, mas...
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Os passos de Lansberg soaram subindo as escadas. Com ele, o esquadrão de Manhattan do departamento de polícia.
— Shhhhh! Senhor Amati. Vem cá um instante — disse o policial.
— O tenente Carnotti. O q...
— Shhhhhhh! Eu disse pra vir cá e ficar quieto!
— Você conhece esse homem? — Lansberg perguntou sutilmente ao policial, indicando Amati.
— Sim, sim. É confiável.
Lansberg virou para o zelador.
— O que você sabe sobre o que cara que acabou de entrar?
Amati pareceu entender que algo realmente sério estava acontecendo, pois sua voz baixou para um sussurro conspirador:
— Não sei. Não vi quem era. O que está acontecendo, tenente Carnotti?
— E quanto ao apartamento 523? Quem vive lá? — perguntou Karnes.
— Ah, elus? Senhor e senhora Seigert. Artistas. Ela faz pinturas, ele faz esculturas — O sotaque se tornava mais carregado conforme Amati explicava. Ele arregalou os olhos em compreensão. — Oooh, vocês são tipo o Plantão Policial, né? Eu acredito que tem algo estranho com elus.
Passos soaram vindos do alto da escada.
— Ficamos de olho no ponteiro do elevador pelo hall de entrada e eu indiquei o telhado para os cópteros — sussurrou Lansberg.
A polícia começou a preencher silenciosamente o corredor.
O tenente Carnotti determinou que ume des sues agentes ficasse com Amati, apenas para mantê-lo fora do caminho. Karnes liderou o grupo pelo corredor até o 523, armas em punho.
Karnes bateu na porta com vigor.
— Quem está aí? — alguém lá dentro perguntou.
Karnes deixou a voz um pouco mais grave que o normal e disse:
— Sou eu, senhor Amati, só eu, o zelador.
A imitação do sotaque não estava perfeita, mas o abafar oferecido pela porta resolveria o assunto.
— Ah, sim, Sr. Amati. Um segundo. — Houve uma pequena pausa, preenchida por conversas abafadas, até que alguém começou a destrancar a porta.
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As coisas começaram a acontecer muito rápido. Assim que a porta se abriu, Karnes viu que havia uma daquelas correntes de segurança que permite uma abertura de poucos centímetros. Sem hesitar, jogou seu peso contra a porta. Lansberg veio logo atrás.
Sobre o peso combinado dos dois homens, a corrente foi arrancada do batente, abrindo a porta por completo. Nesse movimento, ela arremeteu contra o rosto da pessoa que a abriu, nocauteando-a.
Além de Brittain, havia sete pessoas performando o masculino e outras duas performando o feminino na sala. Ume delus já tinha a pistola sacada, mirando na entrada. Karnes se ajoelhou e atirou ao mesmo tempo em que a arma da outra pessoa foi disparada.
A bala de três milímetros, em alta velocidade, chiou acima da cabeça de Karnes e foi se enterrar no ombro de Lansberg. O agente caiu, seu corpo girando no processo pelo impacto. Seu joelho bateu nas costas de Karnes.
Karnes cambaleou, mas manteve o equilíbrio. Algo voou do bolso de seu casaco e deslizou pelo chão. Karnes não entendeu o que era até alguém do outro lado da sala apanhar o objeto.
Brittain pegara o reprodutor mental!
Karnes tinha consciência de que havia oficiais atirando atrás dele em direção aes conspiradories que cometeram o erro de sacar suas armas, mas ele não estava interessado nisso. Ele observava Brittain.
Levou segundos, mas para Karnes pareceram longos minutos. Brittain tinha certeza de que o reprodutor era uma arma quando o pegou. Assim que percebeu seu erro, fez o movimento de atirá-lo pela porta. Naquele instante, o reprodutor brilhou levemente, como se houvesse um radiador quente entre o observador e o objeto. Brittain travou, seus olhos se arregalando.
Ele se engasgou e depois arremessou o reprodutor no chão com toda a força que conseguiu.
— NÃO! — ele gritou. — É MENTIRA!
O reprodutor se chocou contra o chão e quebrou. De seu interior espatifado veio um clarão multicolorido ofuscante. Em seguida, escuridão. Karnes desmaiou.
Ele acordou sendo sacudido por ume des policiais.
— Acorde, Sr. Karnes, acorde!
Karnes se sentou de uma vez.
— O que aconteceu? — Não havia tempo para ser original.
— Não sei ao certo. Ume des Ligonautas jogou algum tipo de bomba de gás e ela derrubou todo mundo no local. Engraçado que apagou até elus. Quando o resto do pessoal entrou, estava todo mundo esparramado no chão. A maioria está voltando a si agora, menos aquelus dues Ligonautas ali que foram derrubades por chumbo, não gás.
Karnes se levantou. Sentiu um pouco de tontura, fora isso, nada demais. Observou a sala.
Havia uma marca amarelada no chão, onde o reprodutor brilhou e desapareceu. Lansberg estava inconsciente e sangrando em bicas pelo ombro direito. Duas pessoas foram levadas pela polícia. Três agentes da Liga ainda estavam apagades, ninguém tentou acordá-les, estavam sendo algemades.
Uma pessoa chorava e amaldiçoava a “maldita e imunda polícia das Nações” por cima de um dos corpos. Outra estava sentada, petrificada, olhando para as algemas com um sorriso de escárnio.
— Onde está Brittain? — rugiu Karnes. O homem não estava em lugar nenhum na sala.
— Fugiu — respondeu ume des policiais. — Escapou enquanto o resto de nós estava inconsciente. Ele foi o responsável pela bomba.
Karnes olhou o relógio. Uma e dezesseis da matina. Eles ficaram fora do ar por doze ou treze minutos.
— Onde diabos ele se meteu? Como foi...
O tenente Carnotti foi até ele com uma expressão de auto reprovação.
— Eu sei como ele fugiu, Sr. Karnes. Acabei de falar com meu pessoal no telhado. Ele apanhou a jaqueta e o quepe do uniforme do sargento Joseph enquanto ele estava apagado e confiscou um dos cópteros no telhado.
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Karnes não esperou por informação adicional. Correu até o hall e para o elevador que estava parado no andar. Em questão de minutos, ele estava no telhado.
Ume policial estava falando rápido no transmissor:
— ... número 3765. Partiu por volta de dez minutos atrás, supostamente para o hospital. Oficial Powers no cóptero com ele.
Elu parou e mediu Karnes, que avançava intimidador. Elu sacou a arma antes de perguntar:
— Quem é você, colega?
Karnes lhe disse quem era. Le policial estava cétique. Ele não tinha seu chapéu e suas roupas estavam amarrotadas após o cochilo no chão.
Karnes não precisou dizer mais nada, outre policial já revistava seus bolsos e encontrou a carteira. Assim que elus acharam sua identidade à prova de falsificação, relaxaram.
— Desculpa, Sr. Karnes, — disse le oficial no transmissor, — mas nós já deixamos alguém escapar.
Karnes confirmou com a cabeça.
— Estou ciente. Pura sorte que a roupa dele tinha o mesmo tom de cinza dos uniformes que vocês usam, sem isso ele jamais escaparia. Tudo que precisou foi uma jaqueta e um quepe. Alguma ideia da direção para onde foi?
Le policial deu de ombros.
— Ele subiu e nos disse que três pessoas haviam sido baleadas lá embaixo e outras desmaiaram com gás. Disse que o Sr. Lansberg o enviou para chamar o atendimento do hospital. Depois subiu num cóptero com Powers e seguiu na direção nordeste. Não demos muita atenção. Afinal, ele usava as listras da patente de sargento.
Nordeste. A direção indicava Long Island. Mas era natural que ele desse voltas, não seria burro de seguir para a direção que queria até estar fora de vista. Ou seria?
— Volte para o rádio — ele ordenou — e diga que eu quero aquele homem vivo. Entendeu? Vivo!
— Sim, senhor! — Le oficial se voltou para o microfone e iniciou a transmissão.
Karnes levou o indicador e polegar até a ponte do nariz e fechou os olhos numa tentativa de se concentrar. Com Lansberg ferido, o caso Brittain caía em suas mãos. Teoricamente, ele deveria estar pressionando os prisioneiros lá embaixo para descobrir a amplitude do círculo de espiões.
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Seu interesse real era o próprio Brittain. Não havia dúvidas de que o conspirador recebera outra mensagem do reprodutor antes de espatifar o objeto.
Quando o treco quebrou, energias desconhecidas que o mantinham ligado deram curto-circuito, paralisando todo mundo na sala com o efeito do reprodutor mental.
Então, por que não deu nenhum efeito em Brittain? Talvez a exposição que sofrera em um primeiro momento o imunizara. Não tinha como saber. Nunca teria.
Mas qual foi a mensagem que Brittain recebeu do reprodutor que o fez reagir de forma tão violenta? Não poderia ser a mesma que ele, Karnes, havia recebido.
Continua na Camada Dois!
Óbvio, era isso! Como páginas de um livro. Ele fora acometido pela página um e Brittain pela página dois. Página três? Perdida para sempre.
Por que ainda não encontramos aquele cóptero? Deve ser fácil o bastante de encontrar.
Ele caminhou até a beirada do prédio e olhou para baixo. A polícia distribuía os prisioneiros nos carros. Num instante, tinham partido. Ume des oficiais tocou o ombro dele.
— Pronto para ir, Sr. Karnes?
Ele anuiu e subiu no cóptero. A máquina subiu e voou em direção à Delegacia Central.
Ainda estava tentando pensar quando o telefone tocou. Le policial atendeu.
— Trinta e dois dezessete, Brown falando. Que? Sim, só um instante. É pra você, Sr. Karnes.
Ele apanhou o fone.
— Karnes falando.
— Central falando, Sr. Karnes — Veio a voz. — Conseguimos algo sobre Brittain. Dez minutos atrás, ele abandonou o cóptero policial. Oficial Powers estava num dos assentos, alvejado na cabeça. Agora vamos pegar esse efedepê por homicídio.
— Onde o cóptero foi abandonado?
A Central o informou e prosseguiu:
— Engraçado que ele nem tentou esconder nem nada. E ainda roubou outro cóptero, privado. Estamos atrás da descrição do transporte agora. Eu retorno assim que tiver novas informações.
— Certo.
Karnes desligou. O endereço onde Brittain havia abandonado o cóptero era quase uma linha reta entre o hotel e o Espaçoporto de Long Island. Mas se Brittain estava mesmo indo para lá, por que deixar uma trilha tão óbvia?
Ele se virou para le pilote do cóptero.
— Tenho um palpite. Dê a volta nessa coisa e siga para Long Island. Tenho a sensação de que Brittain estará lá. Ele...
O telefone tocou de novo, Karnes atendeu.
— Sr. Karnes, encontramos o cóptero civil! Está no Espaçoporto de Long Island. Só um segundo, a informação ainda está chegando. — Houve uma pausa. — Seguinte: Um homem cuja descrição bate com a de Brittain comprou uma passagem no foguete para a Costa Oeste. Como o senhor sabe, lá é território da ONU, não temos jurisdição. O foguete foi selado para decolagem, mas estão segurando para nós até o senhor chegar lá.
— Certo. Estou seguindo para lá imediatamente — ele respondeu afoito.
Doze minutos depois o cóptero da polícia desceu ao lado da área de lançamento. Karnes já havia avisado le pilote de sua chegada. Ele correu pela rampa e entrou na cabine de pressurização do foguete transcontinental.
Com um suspiro, a cabine se abriu e Karnes entrou. Lá foi recebido por ume comissárie de bordo assustade.
— Diga para ele entrar aqui, sem gracinhas. — Surgiu a voz de dentro da cabine de passageires.
Brittain estava na extremidade dianteira da cabine com a arma apontada.
O foguete estava inclinado a quarenta e cinco graus para a decolagem. Os assentos eram ajustados para se manterem nivelados ao solo, o que dava a sensação de uma escadaria em direção à cabine de pilotes na parte mais alta da nave. Brittain estava no topo da escadaria.
Karnes ergueu as mãos e as manteve cuidadosamente distantes da região do coldre.
— Muito bem — falou Brittain —, feche a porta e tira essa nave do chão.
Le pilote podia ouvi-lo pelo sistema de comunicação. A porta de pressurização se fechou novamente.
— Encontrem um assento e fiquem nele — o espião prosseguiu, afiado. — Se você tentar qualquer bobeira, eu começo a atirar em todo mundo, caso não consiga acertar você.
Karnes entendeu o que Brittain usou como barganha com le pilote. Elu não podia arriscar a vida des passageires.
Le comissárie e ele foram até os assentos de aceleração e afivelaram os cintos. Brittain desceu alguns degraus e foi se sentar ao lado de uma pessoa loira assustada.
— Qualquer gracinha e a loirice aqui leva bala. Beleza, pilote, partiu!
Houve um zumbido, seguido pelo rugido pulsante dos foguetes. A pressão da aceleração começou a empurrar as costas des passageires contra os assentos. Karnes se inclinou para trás e tentou — com sucesso — suprimir o sorriso de triunfo que tentava continuamente preencher seus lábios.
Brittain tinha cometido um erro.
Duzentos quilômetros acima da Pensilvânia, a propulsão foi cortada e a nave entrou em queda livre. O erro de Brittain se tornou evidente.
Com a parada brusca, os assentos de aceleração acolchoados se expandiram, pressionando les passageires contra os cintos de segurança. Mas Brittain não se afivelou.
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Os assentos expandidos foram jogados para frente em direção ao teto. Antes que Brittain pudesse se recuperar da surpresa, Karnes já tinha se soltado e lançado seu corpo pelo ar em direção a Brittain. Eles colidiram com um baque e o corpo de Brittain se chocou contra o teto da cabine com uma força agonizante. A arma escapou de sua mão, batendo na parede e deslizando para longe. Brittain estava desmaiado.
Karnes o algemou em segurança e, com a ajuda des comissáries, rebocaram o corpo desacordado para o compartimento de bagagem. Ume passageire vomitava silenciosamente na escotilha de descarte a vácuo.
Com Brittain preso em um bagageiro vazio, Karnes flutuou até a cabine de pilotes, puxando-se pelo corrimão que passava por todo o chão.
Le pilote parecia aliviade.
— Graças aos céus você pegou o demônio! Ele sacou quando atrasamos a decolagem e ameaçou atirar nes passageires. Eu não pude fazer nada.
— Eu sei. Deixe-me usar seu rádio.
Levou alguns minutos para conseguir que a Investigação Internacional da ONU atendesse, mas Karnes conseguiu falar com sue superiore no escritório e reportar o que aconteceu.
— Certo, Karnes — Ele ouviu a voz entregue por feixe de laser. — Agora, outra coisa que você precisa saber. Nossa rede de radares encontrou uma série de foguetes robôs vindos do Polo Norte. Até agora, cinco foram interceptados por foguetes nossos. Mas nem de longe alcançaremos todos. Pelo jeito, a Liga está se sentindo preparada para nos enfrentar, agora que pegaram a Base Lunar e duas de nossas fábricas de espaçonaves estão fora do caminho. A guerra começou, Karnes.
Karnes confirmou e elus cortaram a conexão.
Havia algo queimando em sua mente. Brittain fugira de Nova York sem se importar quanto o tinham seguido e a trilha que havia deixado. Por quê?
Ele empurrou a porta da cabine de pilote e, sem se importar com o corrimão, se lançou para o fundo da nave, virando o corpo no meio do caminho para pousar com os pés sobre a porta do bagageiro. Ele a abriu e deu impulso para entrar.
Brittain ainda estava grogue, então Karnes começou a bater no rosto dele, metódico, fazendo a cabeça do homem pender de um lado para o outro.
— Tá bom! Tá bom! Para! — Brittain gritou, totalmente acordado.
Karnes parou e Brittain piscou. O palpitômetro de Karnes estava a todo vapor. Ele sabia que a mentira que ia contar a seguir teria o efeito desejado.
— Você não achou que escaparia de verdade, né, colega? — ele perguntou, perverso. — Estamos voltando para Nova York neste instante e você vai a tribunal por assassinato, assim como por sabotagem e espionagem.
Os olhos de Brittain se arregalaram em horror.
— O que o reprodutor mental contou para você? — Karnes prosseguiu.
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Brittain tentava manter a boca fechada, mas naquele instante, um clarão surgiu com um flash azulado através do quartzo duro da janela mais próxima.
Em algum lugar distante ao norte, outro foguete de interceptação encontrara a ogiva atômica de uma bomba inimiga.
Brittain sabia e reconheceu o flash. Ele gritou sem palavras e começou a soluçar feito uma criança desamparada.
Karnes começou a estapeá-lo de novo.
— Vamos, o que você sabe?
— Não... Não deixe a nave voltar para Nova York! Aquilo disse... disse... — Ele se engasgou, respirou fundo e gritou: — VAMOS TODES MORRER!
— Por quê? — A voz de Karnes era fria.
— BOMBA! — Brittain gritou de novo.
Depois de mais alguns minutos de interrogatório, Karnes finalmente conseguiu o resto da história.
Les Galactianes haviam descoberto que nessa data uma bomba nuclear vazaria pela rede de proteção da ONU e destruiria completamente a maior parte da região metropolitana de Nova York. Apenas uma outra bomba passaria também, mas seria desviada e cairia em algum lugar do pacífico, errando Los Angeles.
— Mais alguma coisa? — Karnes perguntou depois de algum tempo de silêncio de Brittain. — Não disse nada sobre elus terem que prevenir isso?
A voz de Brittain estava fraca.
— Tudo que disse era que os registros deveriam ser preservados. Disse que as coisas deveriam ocorrer exatamente como antes. Disse que nada deveria interferir com o completo desenvolvimento, seja lá o que isso queira dizer.
Karnes se empurrou para fora do bagageiro e de volta ao compartimento de pilotes. O que le pilote tinha a dizer ali não era novidade para Karnes.
— Rádio de Nova York dizendo que a bomba errou L.A. e acertou o oceano. Essa passou perto.
Karnes confirmou com a cabeça em silêncio e se reclinou no assento de comissárie de bordo para pensar.
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Era de se esperar que Brittain estivesse tão ansioso para abandonar Nova York.
Nova York seria destruída, mas isso era inevitável. Aquilo que o incomodava, o dilema, estava resolvido.
Essa Terra que ele vivia era a real ou um museu criado peles Galactianes? Se fosse a Terra ancestral, então a população resolveria o problema que se desenrolava e seguiria adiante para resolver o problema da viagem no tempo e do transporte interestelar. A guerra atual seria apenas outro pequeno incidente ocorrido no passado, como as batalhas de Gettysburg e Azincourt.
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E se fosse a Terra museu? Nenhuma diferença. Les Galactianes decidiram não interferir. Elus decidiram deixar a caminhada da Terra seguir em frente... deveria ocorrer exatamente como antes. Não fazia diferença. Nenhuma diferença. Uma duplicata perfeita de uma original era, em todos os sentidos, a original.
— Engraçado — disse o piloto, de repente —, não estou recebendo nenhum sinal de Nova York.
Karnes respirou fundo e mordeu o lábio inferior. Mas ele não olhou para trás, em direção ao horror que era Nova York. A cidade já era, mas o mundo estava ali... Sólido e real.
É melhor vocês expandirem um pouco esse museu, pessoal, ele pensou. Teremos que incluir Marte e Vênus em pouco tempo. E depois, as estrelas.
FIM
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Informações Gerais
O texto original em inglês faz parte do Gutenberg Project e pode ser acessado clicando aqui.
Escrito por Gordon Randall Garrett.
Traduzido por Di Toledo.
Preparação por Iana A. (Contato: Carrd)
Publicado em maio de 1953, pela Space Science Fiction Magazine.
Ebook publicado por Gutenberg Project em 22 de abril de 2010.
Ilustração recortada da publicação original, feita por Ebel.
Este texto faz parte do domínio público uma vez que a pesquisa feita não constatou a renovação dos direitos autorais desde a morte do autor (1987).
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